Passei estes últimos dias enfrentando um dilema. Escrevo o editorial da VendaMais com semanas de antecedência, respeitando um cronograma de produção que exige prazos para edição, revisão, diagramação etc.

E escrever este texto em momentos de crise é sempre um desafio. Afinal, como escrever algo relevante agora sem saber exatamente o que acontecerá, sem ter ideia de como estará o cenário daqui a dois ou três meses?

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Estamos vivendo 3 crises simultâneas

Lancei a VM em 1994. Ou seja, já passamos por outras crises ao longo da nossa história. Porém, esta é diferente, pois não verdade são três crises juntas.

  1. A primeira crise é a da saúde: o vírus.
  2. A segunda crise é econômica, provocada pelas ações de contenção (necessárias e fundamentais no combate à pandemia, mas dolorosas economicamente).
  3. A terceira crise é psicológica e emocional: o baque imenso que é termos que lidar com as duas primeiras crises e ainda estando em quarentena. O ciclo do luto é duro, dolorido, longo… vai e vem em ondas, com uma gangorra emocional, uma verdadeira montanha russa de sentimentos e emoções acontecendo todos os dias.

Inclusive, caso persista por muito tempo, podemos ter até uma quarta crise, que seria social (já aconteceu antes, basta estudar pandemias).

Acredito que não vá acontecer e que a probabilidade seja pequena, mas não é zero, e toda análise racional precisa confrontar a realidade dos fatos, por mais brutais e desagradáveis que possam ser.

O que me traz de volta ao editorial… como escrever sobre tudo isso em quarentena, respeitando a gravidade do momento?

Nestas horas gosto de relembrar uma resposta que Jeff Bezos deu certa vez a uma jornalista quando ela lhe perguntou sobre as mudanças que estavam acontecendo e como lidar com elas.

Bezos respondeu:

“essa é uma pergunta interessante, mas o que realmente me interessa é o que não muda”.

Concordo com ele. Com base no que não muda podemos tomar decisões melhores sobre o planejamento estratégico em tempos de crise.

O que não muda em tempos de crise:

  • Não muda nossa criatividade para superar desafios;
  • Não muda nossa persistência e perseverança;
  • Não muda nossa resiliência;
  • Não muda nossa capacidade de criar, planejar, executar;
  • Não muda nossa garra;
  • Não muda nosso comprometimento com uma causa maior.

E outra coisa que eu vejo claramente que não muda é a necessidade de termos modelos mentais que nos ajudem e direcionem em momentos de crise.

Por isso queria lhe apresentar uma sequência de 11 perguntas que servem não apenas para lidar com a situação atual, mas para enfrentar e liderar qualquer momento de crise da sua vida.

Acredito muito em otimismo, mas acredito também em otimismo realista – foco positivo na visão de longo prazo enquanto você confronta a realidade, por mais brutal ou incômoda que seja.

Não podemos confundir as coisas e, como líderes, temos uma responsabilidade ainda maior de direcionar corretamente as pessoas que dependem e confiam em nós.

Antes de apresentar a sequência de 11 perguntas, baseadas num modelo criado por Keith J. Cunningham, permita-me explicar de onde saíram.

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Planejamento estratégico em tempos de crise e adaptação

Em agosto de 1949 aconteceu uma pequena tragédia nos Estados Unidos, em um local chamado Mann Gulch. 16 bombeiros combatiam um incêndio que saiu de controle em uma floresta; 13 deles morreram.

Quando o US Forest Service foi revisar os motivos das mortes, ficou claro que, no calor da crise (literalmente), uma série de decisões haviam sido tomadas de maneira equivocada, o que acabou resultando na tragédia.

Por exemplo, os bombeiros haviam sido sempre treinados a nunca se separar das suas ferramentas e dos seus equipamentos.

Portanto, todos os bombeiros que morreram ainda carregavam suas mochilas e ferramentas – mesmo tendo que correr colina acima para tentar fugir do fogo. É verdade que haviam sido treinados a vida inteira para fazer desse jeito, mas, numa situação que precisava de adaptação, seguiram os procedimentos normais e acabaram morrendo.

Carregando todo aquele peso, muitos deles ficaram exaustos rapidamente. Mesmo os mais fortes foram muito mais lentos do que poderiam ser.

O fogo acabou alcançando-os… e eles morreram queimados.

A diretriz clara de todos os treinamentos até aquele momento era “combater o fogo”. Para isso havia regras e procedimentos.

O fogo era o inimigo – vamos derrotar o inimigo! E para fugir? E se naquele momento não fosse possível vencer o inimigo?

Para isso não existiam padrões ou procedimentos. Por consequência, também não haviam sido treinados a reconhecer a situação ou como lidar com ela.

Os bombeiros iniciaram então um vigoroso processo de revisão de procedimentos padrão e de treinamento de todos.

As perguntas sendo feitas nesse processo podem ajudá-lo hoje, neste momento de crise, mas servem como lógica para o resto da vida.

Aliás, é um ótimo assunto para um/uma líder pensar muito e discutir com sua equipe mais próxima. Acompanhe!

11 perguntas para repensar seu planejamento estratégico em tempos de crise

1. Qual é o verdadeiro problema que estamos enfrentando e como isso é diferente do que vínhamos pensando antes?

Comentário:
Aprofunde-se de verdade, perguntando: “Este é o verdadeiro problema ou é consequência de outro problema maior?”.
Lembre: a pergunta é “qual é o verdadeiro problema?”.

2. Quais são as estratégias que ficaram obsoletas e ultrapassadas nesta situação e que claramente estão nos segurando ou não estão ajudando mais?

3. Quais são os processos e procedimentos que não são mais úteis nesta situação e que precisam ser revistos?

4. Quais são as ferramentas que não são mais úteis nesta situação – ficaram defasadas, são inúteis no momento, são um peso e tiram nossa agilidade, por exemplo – e, portanto, precisam ser revistas?

5. Quais são os comportamentos e as atitudes que precisamos eliminar porque não estão sendo benéficos agora?

6. Se inteligência é a capacidade de adaptação e para você se adaptar precisa aprender coisas novas e colocar em prática, quais são as coisas novas que precisamos aprender e colocar em prática? Quais novos conhecimentos e habilidades precisamos aprender, reforçar, desenvolver para evoluir no processo de adaptação e melhoria?

7. Quais são as novas ideias ou os novos projetos que podem nos ajudar não apenas a resolver esta situação, mas que nos posicionam de maneira positiva a criar uma oportunidade melhor no futuro?

8. Quem na nossa equipe ou no mercado tem uma solução ou uma ideia sobre como resolver o problema que estamos ignorando porque não se encaixa de maneira perfeita no nosso modelo antigo de pensar? Ou seja, quais ideias inovadoras podemos estar bloqueando por preconceito?

9. Quem no nosso time realmente tem perfil para fazer os ajustes necessários – tanto de atitude quanto de habilidades/execução – para nos ajudar neste processo de transição? Quem de verdade faz parte da nossa tropa de elite?

10. Como redefinimos “sucesso”? Qual é de verdade nosso objetivo agora?

11. Quais são os próximos passos?

Este tipo de ferramental decisório, que permite uma análise mais crítica e focada do cenário, ajuda muito a controlar a ansiedade e direcionar ações de maneira mais planejada – mesmo que apenas taticamente.

Trabalhe com cenários (positivo, neutro, negativo) e revise com frequência o que vem sendo feito usando a estrutura acima.

Isso vai ajudar você a contornar e superar melhor os inúmeros obstáculos que provavelmente encontraremos nos próximos meses até voltarmos à normalidade.

Alguns comentários na hora de criar seu planejamento estratégico em tempos de crise:

  • Lembre-se que o Brasil é um show, e o show não pode parar. Você faz parte desse show, contamos com você.
  • Prepare-se para uma maratona e não para um sprint.
  • Cuide-se e cuide dos seus.
  • Aposte no mindset de crescimento (e não no mindset fixo); tenha mindset de vencedor (e não derrotista).
  • Aposte na visão de longo prazo, mas no planejamento e na execução de curto prazo.
  • Entenda que esperança e otimismo são extremamente necessários, mas lembre-se de que não que não podemos confiar apenas nisso. Como dizem os muçulmanos, “confie em Alá, mas amarre seu camelo”.
  • É hora de mostrar o seu melhor você, a sua melhor versão. Fomos chamados, chegou a hora. Rise up!
  • Ao correr para voltar ao novo normal, vamos aproveitar a oportunidade para repensar quais partes do normal antigo realmente valiam a pena.

Para terminar, uma frase do Winston Churchill:

“Nunca desperdice uma boa crise”.

Parece duro de pensar agora, eu sei, mas é o que nos fez avançar sempre como seres humanos.

Abraços socialmente distantes, mas muito próximos na visão de um futuro melhor.

Raul Candeloro

Conhecer o mento atual de sua empresa em detalhes é fundamental na hora de fazer um planejamento estratégico em tempos de crise.

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